A poética das vozes | por Luna Vitrolira

A poesia está na vida, na escuta e no sentir dos diversos falares que simplesmente acontecem, naturais e espontâneos, no dia a dia. É o que mantém nossa existência vinculada ao ritmo do cosmos e ao nosso chão. Mais do que forma literária, é um jeito de ser, de se relacionar, de lidar com o mundo e com o nosso território. Como estamos sempre em movimento, torna-se importante nos situarmos geograficamente para nos localizarmos, visto que o lugar do qual falamos diz quem somos e qual é o nosso ponto de partida.  

Estamos em Pernambuco e, para dizer sobre poesia nesse território, é preciso considerar que este é um estado poético. Vê-se a cultura dinâmica, inventiva e pulsante em toda a sua extensão – nos Sertões, no Agreste, nas Zonas da Mata Norte e Sul e na Região Metropolitana. Nesses lugares, encontramos diversidade de falares e expressões artísticas marcadas pela presença da poesia, do corpo e da voz, como vontade de existência, enquanto poética e manifestação política dos povos. Contos, lendas, mitos, dizeres; cavalo-marinho, ciranda, frevo, maracatu; slams, cantoria de viola, aboio, samba de coco, mesa de glosas, tudo faz parte do repertório de nossas celebrações e saberes pautados na oralidade. 

Por exemplo, andamos pelo centro da cidade do Recife e ouvimos cantos de trabalho entoados pelas pessoas do comércio; dentro de um ônibus comum assistimos à dupla de emboladores, fazendo improvisos de gracejo para conseguir o pão do dia; em casa contamos histórias para as crianças dormirem; reproduzimos um ditado durante uma conversa, que aprendemos com as pessoas mais velhas sem nem nos darmos conta. Vamos ao parque Treze de Maio e nos deparamos com uma competição de poesia falada. Chegamos na mata do Catucá, em Igarassu, e celebramos a festividade Kipupa Malunguinho e a Jurema Sagrada; seguimos para a cidade de Condado, na Zona da Mata, e brincamos uma sambada de coco rabecado que se estende no tempo; passamos em Lagoa de Itaenga, sentimos a fé e escutamos as rezas e a sabedoria milenar de Maria Cabocla. No Sertão tem São José do Egito com as suas Cantorias de Viola; Tabira, com a Mesa de Glosas; Serrita, com a Missa do Vaqueiro, sem contar as festas de Reis, Carnaval, São João e tantas outras.  

A voz transmutada em arte gestou patrimônios imateriais nos recantos do estado pernambucano, de modo que, em cada cidade e zona rural desse território, em cada morro, quilombo, favela e terreiro, estão partes dessa construção cultural, elaborada por pessoas que celebram, brincam, se manifestam, fazem arte, política e revolução. Dessa forma, cantos, loas, saberes, narrações compõem a nossa paisagem cotidiana, o nosso cenário e a poética de nossas vozes. 

Isso se justifica devido à trajetória histórica do desenvolvimento antropológico da região, que segue repercutindo nas manifestações artísticas e literárias insurgentes alicerçadas nas diferentes culturas, poéticas e orais, gestadas pelos povos originários, diaspóricos e ibéricos. Dessa forma, três aspectos – culturas, poesia e oralidade – se entrelaçaram com a origem e a construção do espaço a partir da colonização, apesar da violência do processo de caldeamento. Afinal, ao mesmo tempo, essa intersecção cultural sobreveio como estratégia, sobretudo entre o povo em diáspora e os originários, para existência e resistência, ação e reação, ao sistema de aldeamento, escravização e etnocídio. Ou seja, como uma forma de os povos escravizados manterem e garantirem às gerações futuras suas referências de origem, identidade, ancestralidade, crenças e memória, diante das atitudes governamentais genocidas, bélicas e religiosas dos colonos. 

O fato de entendermos o estado de Pernambuco como multicultural, composto por diferentes culturas, não quer dizer que seja intercultural, que essas várias culturas interajam e se integrem de modo horizontal, sem estabelecerem hierarquias, exercendo o respeito pelas diferenças étnicas e estéticas entre seus Falares. Por isso, a construção de um legado que integra um vasto repertório cultural e artístico ser reconhecido, pejorativamente, como tradicional (no sentido contrário ao que é moderno e dinâmico) e catalogado como popular e folclórico, sendo distanciado da cultura e da arte reconhecida como de elite.  

Tal catalogação é parte do projeto genocida ao qual o Brasil aderiu como estratégia de silenciamento e invisibilidade dos povos, com base no epistemicídio. O que se deu por meio da legitimação do modelo eurocêntrico, e escriptocêntrico, em detrimento das culturas não ocidentais e fundamentadas na oralidade, instituindo o argumento de raça e classe, além das questões que também envolvem gênero, como provas de autenticação. No Brasil, a oralidade é associada ao analfabetismo por efeito da sacralização da letra e ao seu privilégio. Nesse sentido, a aceitação da voz e do que ela produz está relacionada ao lugar político do corpo que fala, de seu letramento, de sua localização social, econômica e étnica. Portanto, as culturas e as produções artísticas não brancas, fundamentadas na oralidade e produzidas nas periferias, ligadas ao passado ancestral, são vistas como inferiores quando situadas em oposição ao que é considerado erudito e hegemônico. 

Zumthor (1997) descreve que existem quatro tipos de oralidade: a primária e imediata, ou pura, que não tem contato com a escrita, portanto sem registro documental. A oralidade mista, que apresenta a influência da escrita de forma externa, parcial ou retardada, procedendo desta. A oralidade segunda, que procede de uma cultura letrada, em que a escrita predomina sobre os valores da voz, tanto na prática como no imaginário, enquanto dispositivo de poder. E a oralidade midiatizada, mecânica e influenciada pela tecnologia, diferenciando-se no tempo e no espaço. Essa última coexiste com a mista e a segunda e, em alguns casos específicos, em territórios mais afastados, com a primeira. 

De todo modo, todas essas formas de oralidade estão acesas e presentes. A questão a ser destacada é a hierarquia que existe entre essas diferentes formas de oralidade e o quanto a oralidade segunda se impõe sobre a primária e a mista, usada como mecanismo político e social. Diante disso, a poética das vozes periféricas ainda sente o peso da invisibilidade, pois a sua desvalorização, por não estar ancorada nos parâmetros da epistemologia universalizada, repercute no apagamento de seus representantes, de seus materiais simbólicos e, consequentemente, de suas comunidades. 

Esse pensamento ilumina a nossa consciência sobre a estrutura social que define os detentores do poder da fala, que determina quais vozes são legitimadas e quais não, sendo tratadas, inclusive, como anônimas. Mas isto é certo: não há quem possa negar as tradições orais como origem de tudo, o seu legado, influência e fundamental existência em nosso complexo artístico-cultural. É importante considerar que as culturas subalternizadas são criações, reações, manifestações e discursos contra-hegemônicos, fixados na memória coletiva dessa face multicultural, com importantes desdobramentos artísticos que contam a nossa história. 

As vozes perduram no tempo e criam seus ecos. Os falares tomam a forma de verso. São reverberações de uma cosmopercepção que é poética em sua essência. Sabedorias metaforizadas, vivências que revelam comportamentos sociais e sensações, ou sentidos de mundo relativos à comunidade e suas memórias. Tornam-se cantos, provérbios, brincadeiras infantis. Somos essas vozes na rede de recepção e transmissão. Passá-las adiante é dar sentido e orientação para a permanência desses saberes, fazendo reverberar sobre a comunidade, em nós e nos outros, visto que há uma identificação imediata, estimulando-nos a interiorizar essas vozes e propagá-las desde a infância. São espectros de um senso poético que paira em nossa mente como nuvens que se formam da memória, evaporam nos dizeres e seguem em constante trânsito. Percepções e costumes em movência veiculados através da fala, deslocando-se de uma experiência social para uma poética. 


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Luna Vitrolira é escritora, poeta, atriz, performer, apresentadora, educadora. Finalista do prêmio Jabuti 2019, com o seu livro de estreia na poesia, “Aquenda – o amor às vezes é isso”, publicado pelo selo LIVRE. A partir desse livro, a artista lançou disco (Selo Deck Disc) e filme curta-metragem, homônimos, baseado na obra. Graduada em Letras e Mestra em teoria da literatura, desenvolve pesquisas no âmbito da poética das vozes, com ênfase em oralidade e improviso. É também idealizadora dos projetos “Estados em poesia, “De repente uma Glosa” e “Mulheres de Repente”. 

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