A vida da língua portuguesa no mundo multilíngue: destaques do I Seminário Internacional Viagens da Língua

Entre os dias 08 e 10 de dezembro de 2021, o CRMLP realizou seu primeiro seminário internacional, que teve como tema o multilinguismo em territórios lusófonos, seus contextos sociais e culturais, tendo uma ótima recepção pelo público.

A língua é parte crucial da natureza humana, sua multiplicidade faz parte da nossa história, e abordar a distribuição das línguas em variados territórios é falar da história implícita nas dinâmicas sociais de seus falantes.

Esses aspectos foram a base da escolha do tema do I Seminário Internacional Viagens da Língua: multilinguismo no mundo lusófono, que para sua concepção partiu de aspectos fundamentais da nova curadoria do museu, a qual busca valorizar o português como língua global, explorando a diversidade que compõe a construção de culturas e identidades – especialmente por meio de algumas experiências como Palavras Cruzadas, Nós da Língua e Falares, explicitando como o multilinguismo é um tema que atravessa o mundo lusófono.

Para essa concepção, considerou-se a multiplicidade de perspectivas pelas quais se pode investigar a convivência entre línguas – as dinâmicas sociais, a dimensão institucional e a legislação, a influência mútua entre as diversas formas de falar, os sistemas educacionais, como se estruturam as interações cotidianas, as expressões artísticas… Estes são alguns exemplos dessas perspectivas. Os participantes dos três dias de evento representaram essa abrangência temática e geográfica, além de distintas dimensões: acadêmica, artística e cultural.

Entre palestrantes, mediadores e artistas, havia no Seminário pessoas falando a partir de Moçambique, Angola, Argentina, China, EUA, Finlândia, França, Itália, Japão, Portugal, Cabo Verde, Guiné Bissau, Timor Leste e Brasil.

O tom multilíngue já estava presente na Conferência de abertura, proferida pela escritora moçambicana Sara Jona Laisse, que apresentou o panorama linguístico de Moçambique, país em que são faladas cerca de 23 línguas além do português, mostrando também o seu dicionário Português-Gitonga/Gitonga-Português.

 

“Este contexto multicultural e multilinguístico faz de nós, por um lado, uma nação, e por outro, várias nações dentro do mesmo país. Se nós considerarmos a definição que diz que nação é um grupo de pessoas que fala a mesma língua, vive no mesmo espaço geográfico e tem a mesma cultura, então Moçambique no seu todo é uma nação. Mas se considerarmos os diferentes grupos étnicos que eu apresentei, são várias nações que formam o Estado-nação moçambicano.”

Sara Jona Laisse, na Conferência de Abertura

Depois dessa grande abertura, o primeiro dia de Seminário se dedicou às reflexões específicas sobre as escolhas institucionais que demandam os territórios em que coexistem diferentes línguas, começando pela mesa “Políticas linguísticas”. Como nos disse o professor Xoán Lagares, mediador da roda de conversa “A vida das línguas: entre o uso e as leis”, as políticas linguísticas são um tema que afeta diretamente o cotidiano das pessoas. Os debates desse dia abordaram questões de ensino, escolha de documentos oficiais, reconhecimento de línguas, entre outros, voltados para realidades diversas, como Cabo Verde, Guiné-Bissau e a Amazônia, com destaque para a apresentação de Thais Werneck, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), que trouxe o trabalho do Inventário Nacional da Diversidade Linguística.

“Precisamos dar outros saltos em termos de transformação, tornar a língua guineense na língua da feira, do comércio, na língua do namoro…

É preciso de sair dessa espécie de guetização e tornar a língua portuguesa e o crioulo uma língua sexy, uma língua que os jovens procuram para resolver os seus problemas. Se encontrarmos esse caminho, tenho certeza absoluta que a realidade do país em termos linguísticos será diferente da que conhecemos.”

António Spencer Embaló, sociólogo e ex-secretário de Cultura da Guiné-Bissau, na roda de conversa “A vida das línguas: entre o uso e as leis

Considerando que o mundo é majoritariamente multilíngue, ou seja, a maior parte da população convive com mais de uma língua em seu cotidiano, o segundo dia de evento (composto pela mesa “Culturas multilíngues” e pela roda de conversa “Vidas entre línguas”) foi recheado de discussões sobre realidades em que as pessoas vivenciam o português e outras línguas num mesmo território. Fossem outras línguas com caráter de oficialidade ou não, crioulos de base portuguesa ou o contato linguístico em regiões de fronteiras, foram acolhidas apresentações de pesquisas linguísticas, experiências de práticas de ensino e reflexões sobre processos artísticos, com destaque para o Projeto Plataforma da Diversidade Linguística Brasileira, e o trabalho de documentação e registro de línguas indígenas – tanto em meio universitário como no Museu Emilio Goeldi.

Com cerca de 260 milhões de falantes, a língua portuguesa é a 5ª mais falada no mundo. É língua oficial de nove países, além de regiões administrativas como Macau, Damão e Diu, Malaca e Goa. Com isso em mente, o terceiro dia de evento (composto pela mesa “O português pelo mundo” e pela roda de conversa “Língua portuguesa: presença global e formação de redes”) teve como eixo norteador o português no mundo, e sua condição de língua global proporcionou amplas possibilidades de discussão sobre sua presença no mundo, desde as diferentes situações do português em São Tomé e Príncipe e em Macau, até a criação de laços linguísticos que atravessam quatro continentes – como nos mostrou a proposta do Museu Virtual da Lusofonia – e os desafios e riquezas proporcionados por sua diversidade, com destaque para a participação do professor Hugo Cardoso, que nos apresentou o panorama da língua portuguesa em Goa e Sri Lanka.

Além de representantes de diversas universidades, nacionais e internacionais como Universidade do Cabo Verde e Centro de Estudos de Linguística Geral e Aplicada da Universidade de Coimbra (CELGA-ILTEC), estiveram presentes pesquisadores de museus e instituições de cultura, bem como de iniciativas de grande relevância no debate científico, como a Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Letras e Linguística – Anpoll, e a Associação Brasileira de Linguística – Abralin.

Como falar sobre línguas é também falar sobre a cultura, não seria possível fazer este seminário sem uma forma de celebrar as linguagens artísticas. Houve a transmissão do curta-metragem “Larfiagem” (2017, dir. Gabi Bresola), que trata de uma língua inventada no interior de Santa Catarina. O segundo dia, dedicado a culturas multilíngues, contou com a leitura poética em portunhol selvagem por Douglas Diegues – escritor que está presente na experiência Falares, da exposição principal. Encerrando o Seminário, a artista moçambicana Lenna Bahule fez uma performance musical, criada especialmente para o tema, e cujo registro passa a integrar o acervo do Museu!

O público (também composto por pessoas de vários países) participou intensamente com perguntas e comentários, com muitas pessoas expressando a saudade que sentiam de visitar o Museu (naquele momento, reaberto há poucos meses). Certamente, o I Seminário Internacional Viagens da Língua: multilinguismo no mundo lusófono foi uma oportunidade única de reunir discussões muito importantes para os diversos contextos de convivência da língua portuguesa, transitando entre diversas linguagens e promovendo o diálogo entre públicos diversos. Desse modo, o Museu da Língua Portuguesa reafirma seu lugar como espaço para debates qualificados e trocas entre as pesquisas e a sociedade civil.

O I Seminário Internacional Viagens da Língua foi uma iniciativa do Centro de Referência do Museu da Língua Portuguesa. Para saber mais sobre o CRMLP, acesse: https://www.museudalinguaportuguesa.org.br/mlp/centro-de-referencia/

AUTORIA

Cecilia Farias é pesquisadora do Centro de Referência do Museu da Língua Portuguesa.

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