“Quem nunca passou por uma encruzilhada não sabe escolher caminhos.” (Nêgo Bispo em carta para o 20º Fórum Social Mundial)
O Museu da Língua Portuguesa, em seu movimento contínuo de expandir sua presença e atuar como farol em seu território, reafirma sua vocação de ativar experiências que deslocam a palavra de seus espaços convencionais. Assim, a segunda edição da residência artística Encontros Dissidentes, realizada em 2025, aprofundou a premissa de que a língua é viva e cotidianamente atravessada por corpos, territórios, afetos e tensionamentos.
Como campo de criação, formação e experimentação, o projeto surgiu em 2024 em caráter formativo voltado a jovens de 16 a 25 anos, com o objetivo de construir novos públicos e fortalecer o diálogo com a sociedade civil e o território imediato da Estação da Luz. Em 2025, o projeto alcança novo status institucional: transforma-se em residência artística, articulando o Centro de Referência do Museu da Língua Portuguesa (CRMLP) e o Programa de Exposições e Programação Cultural (PEPC). A coordenação formativa e criativa ficou a cargo do Coletivo Coletores. Juntos, Museu e Coletores construíram o projeto desde a elaboração do edital, passando por seleção dos residentes, construção metodológica e acompanhamento do percurso formativo.

A quem pertencem as palavras?
A segunda edição do projeto recebeu 196 inscrições, refletindo o interesse emergente de artistas em atuar no cruzamento entre língua, imagem e cidade. Nesta edição, um dado chama a atenção: o interesse de pessoas acima dos 30 anos em participar do projeto. Pessoas que possuem uma profissão estabelecida (dentro ou fora das artes) que desejam migrar de área ou aprofundar-se no campo da projeção mapeada, mas que acabam não tendo a oportunidade de participar de processos formativos como esse. Assim, a equipe de trabalho optou por não limitar a faixa etária e buscar selecionar pessoas que sejam iniciantes no campo artístico. Diante da análise realizada por um comitê de seleção, partindo de critérios como diversidades, atuação em diferentes linguagens artísticas, engajamento e abertura para realização de trabalhos coletivos, 18 artistas de diferentes regiões da cidade de São Paulo foram convidados a integrar a residência artística.
O resultado foi a formação de um coletivo plural, cujas perspectivas se tensionaram, se afetaram e se expandiram mutuamente. No primeiro encontro, o grupo foi recebido pela equipe do Museu, conheceu sua dinâmica interna, protocolos, áreas de atuação e o percurso formativo proposto.

(Re)conhecendo territórios quando a cidade se torna espaço formativo
Foram 80 horas de residência distribuídas em 13 encontros, abordando temas como intervenção urbana e arte vernacular, motion design, direitos de imagem e documentação de acervos pessoais, fotografia mobile, audiovisual e cartografias afetivas. As formações foram conduzidas pelo Coletivo Coletores e tiveram a rica participação de coletivos artísticos atuantes no território, como o Transverso, Cinefluxo, Paulestinos, Cartografia Negra e o Espaço Cultural Soberano Rua do Triunfo, sendo o território e a língua os protagonistas dos encontros. Nesse sentido, a presença física no território teve um papel relevante na formação e na reflexão artística do que seria apresentado na obra visual resultado da formação.
O território como palavra
A Estação da Luz, o Bom Retiro e seus fluxos migratórios, trabalhistas e afetivos constituíram o eixo territorial da residência. As práticas envolveram caminhadas, derivas, encontros com coletivos locais e escuta das narrativas que moldam a língua em circulação – falada, projetada, grafada, silenciada ou disputada. Esse processo não se restringiu ao entorno: ele reconheceu o território como acervo vivo, tão importante quanto os dispositivos expositivos do próprio Museu.

Concomitante à residência artística, o Museu da Língua Portuguesa preparava a segunda edição do Festival Cultura e Pop Rua, um evento promovido pelo Museu em parceria com o Sesc São Paulo, que visa debater o acesso universal à cultura, a democratização de espaços coletivos, o fomento à diversidade e a promoção da inclusão social. Em 2025, segunda edição, o festival ofereceu uma programação diversificada que incluiu ações formativas, serviços e apresentações culturais. A apresentação inédita e da obra visual realizada pelos residentes foi escolhida como atividade de encerramento do festival, oportunizando a participação de “Encontros Dissidentes” em um projeto de grande relevância para o território e de diálogo presente durante o processo formativo.
O Festival Cultura e Pop Rua é conduzido pelo programa de Articulação Social do Museu, dedicado a facilitar a relação entre o Museu e seu território, atuando na perspectiva do desenvolvimento local e da promoção de direitos. O diálogo e convite aos movimentos e artistas do território que colaboraram com a residência nasceu da formação da rede desenvolvidas pelo programa em seus quatro anos de atuação.

Entrega pública – a palavra como luz
O processo culminou na criação da obra visual “Corpo Território: margens presentes” apresentada em videomapping sobre a face oeste da torre do relógio da Estação da Luz, durante o encerramento do Festival Cultura e Pop Rua 2025. A exibição contou com um público expressivo que assistiu à peça artística em looping por 2 horas. Testemunhar o prédio histórico iluminado por narrativas visuais construídas pelos residentes foi, simultaneamente, um gesto artístico e político: a língua (as línguas?) e as linguagens ocupando um espaço simbólico e exibindo para a cidade, a partir do farol que é o relógio da estação da Luz, o que a rua diz.
O projeto gerou um minidocumentário, disponível no site do Museu, com relatos dos participantes e equipes, parte do processo formativo e a atividade final da residência. Em depoimento, Edgar Salazar Yampara, um dos artistas residentes e morador do território, compartilha sua experiência:
“No encerramento do Festival Pop Rua, fomos “abduzidos” pela conclusão de um trabalho feito em coletividade por artistas do Encontros Dissidentes, usando a projeção mapeada na face oeste da torre da Estação da Luz. Com o apoio do Museu da Língua Portuguesa e a formação do Coletivo Coletores, nós pudemos experimentar não só a projeção, mas todos os percalços de nos encontrarmos como artistas. (…) foram momentos de pura alegria, sintonia e comunhão.

Entregar este trabalho que tem um pouco de cada um, sem perder a identidade e os questionamentos próprios, deixou tudo ainda mais único e gratificante. As barreiras das idades e territórios deram lugar a uma boa vivência, coletividade e pertencimento.
Meu desafio foi legitimar a presença da comunidade boliviana no território e nos mostrar como potência criativa também nas artes digitais.
Fico muito grato à equipe que nos acompanhou desde o primeiro momento no museu, porque nos receberam de forma carinhosa; vibraram e comemoraram conosco.
Fico grato às portas abertas, aos novos amigos, ideias e trabalhos. E por fim, fico feliz de estar abrindo caminho para outros participarem.
Jallalla1, Encontros Dissidentes!”

Dissidência como método
A residência artística Encontros Dissidentes 2025 reforça uma importante camada da atuação do Museu da Língua Portuguesa: celebrar a diversidade cultural e linguística, posicionando-o em um território historicamente marcado pela convergência de diferentes culturas, povos e histórias. Um espaço com o propósito de valorizar a língua e todas as pessoas como agentes criadores e transformadores da língua portuguesa. Ao integrar educação, arte e território, a residência transforma o Museu em laboratório, a cidade em suporte e a palavra em acontecimento. E a língua, como se vê, segue viva.
PARA SABER MAIS
Assista ao minidocumentário Encontros Dissidentes 2025, disponível no Youtube do Museu da Língua Portuguesa nos links abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=7NUnxZpPe08
https://www.youtube.com/watch?v=OXUMaA5qI08 (LIBRAS + legenda)
https://www.youtube.com/watch?v=IrWWrd54IcA (audiodescrição)
Autoria
Luiza Magalhães é bacharel em comunicação social pela UFPE e especialista em museologia, curadoria e colecionismo. Atua como Supervisora do Centro de Referência do Museu da Língua Portuguesa e esteve à frente da Residência Artística Encontros Dissidentes.
